Atma Jordão
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Obra - A educação do homem integral - Huberto Rohden
 
Escola, do grego "scholé", significa tempo livre, recreação. Nas palavras de Platão, estamos a falar do "divino ócio", ou seja, destinar com prazer e voluntariamente um tempo para as coisas da alma. O aprendizado, segundo Platão, só ocorre de maneira voluntária, sem o peso da obrigação.
Huberto faz nessa obra a distinção entre instrução e educação, a primeira estando ligada as questões de utilidade material e a segunda ligada a formação do caráter e o dominio de si mesmo.

A instrução tem por fim fornecer ao homem o conhecimento e uso dos objetos necessários para sua vida profissional.
A educação tem por fim despertar e desenvolver no homem os valores da natureza humana; porquanto a natureza humana existe em cada indivíduo apenas em forma potencial, embrionária.


Assim como Platão, Huberto fala sobre o papel da educação no sentido de eduzir, ou conduzir para fora os valores que já residem em potencia dentro do ser humano. A educação como um convite: " tornai-vos aquilo que já sois" " tornar explicitamente o que voce já é implicitamente."

Também Huberto nos fala que a instrução esta ligado ao mundo dos fatos, do mundo do pequeno eu, da personalidade, do eu pessoal chamado ego. Nesse sentido, a instrução é uma educação castrada, pois não é capaz de relacionar os fatos com os valores, ou o corpo com a alma

O mundo dos fatos é o mundo do ego, de que se ocupa a instrução; o mundo dos valores é o mundo do Eu, que é o escopo da educação.
Em quase todos os países do mundo, sem excetuar o nosso Brasil, o mundo dos valores é quase totalmente negligenciado; sofre de uma atrofia calamitosa, enquanto o mundo dos fatos está unilateralmente hipertrofiado.
Não é possível reestruturar a nossa pedagogia sem dar à educação pelo menos o mesmo valor que a instrução reclama para si.

Pela ciência o homem descobre os fatos da natureza material.
Pela consciência o homem capta os valores do mundo imaterial.

 
O homem de ciência é um descobridor de fatos – o homem de consciência é um creador de valores.

Em resumo descobrir fatos é instrução – crear valores é educação.
A instrução está numa dimensão, e a educação está em outra dimensão. As sua finalidades são totalmente diversas.
O ideal seria que um homem tivesse 100% de instrução e 100% de educação; que fosse mestre em ciência e mestre na consciência.


Quando Huberto relaciona educação com consciência é preciso entender que a consciencia é aquela parte em nós que esta em evolução rumo a imortalidade. Há no homem uma alma imortal, perfeita, transbordamento do Uno e imagem de Deus. Esta parte não carece de evolução ou, como dizem, não carece de salvação. Esta alma imortal é o equivalente ao espirito descrito na biblia: "o espirito esta pronto, mas a carne é fraca." Nesse sentido, a carne fraca, inclui a consciencia, que pode se tornar forte na medida em que aprende a servir o eu superior, o nosso espirito divino.

Se as nossas escolas fossem centros de educação, poderíamos abrir escolas para fechar cadeias. Mas, no mundo inteiro, as escolas dão apenas instrução, que é do ego. E onde há um ego instruído sem um Eu educado, aí há um malfeitor potencial.

Pessoas instruidas, mas sem valores são um transtorno para a sociedade. Uma tentativa de amenizar esse transtorno é o estudo da moral e cívica nas escolas. Este estudo não é capaz de eduzir valores no homem, mas apenas manipular nosso egoísmo por meio de artificios de conveniencia e interesse. Esse tipo de pseudo ética desmorona sempre quando o homem se sente seguro em obter vantagens quando ninguém esta vendo.


Até hoje, os poderes públicos de todos os países insistem muito em instrução e pouco em educação... O que geralmente se chama educação moral e cívica não tem por finalidade tornar o homem bom e consciencioso, mas sim torná-lo adaptável ao convívio social com seus semelhantes. O motivo dessa educação não é de consciência, mas apenas de conveniência.
Por esta razão, a educação moral e cívica não poderá jamais estabelecer uma fraternidade geral e duradoura entre os homens e garantir a paz mundial.
Somente um homem educado pela consciência dos valores é que pode servir de pedra fundamental da harmonia social e da paz mundial. 

As nossas escolas quase nunca tratam seriamente da educação, mas limitam-se à instrução. A educação tem que ver com a consciência, a instrução é da ciência.
O nosso Ministério da Educação é, quase exclusivamente, um ministério de instrução – e isto não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Nem o governo nem as igrejas tratam seriamente da educação, no sentido verdadeiro da palavra. O governo está interessado em instrução científica, e as igrejas limitam-se à simples moralização. Mas nem isto nem aquilo é educação. Nem a instrução nem a moralização tornam o homem realmente melhor. A instrução torna o homem erudito, a moralização torna o homem (ético por interesse/conveniencia). Mas nem erudição nem a (ética por interesse) são educação verdadeira. Altruísmo(por interesse) é um egoísmo sublimado, egoísmo que espera recompensa após-morte. O homem realmente educado é bom, não simplesmente altruísta, não espera recompensa por ser bom, nem antes nem depois da morte – ele é incondicionalmente bom.

Estamos num vácuo educacional. Governos e igrejas pecaram por omissão. Limitaram-se aos fatos – não se interessaram pelos valores. E sem valores não há educação. Verdade, justiça, amor, honestidade, veracidade, etc., são valores, creações da consciência, e não simples descobertas da ciência, nem simples altruísmo moral.
Somente o valor da consciência pode valorizar os fatos da ciência. A educação pode valorizar a instrução, mas nenhuma instrução pode valorizar a si mesma.

O homem instruído é erudito – o homem educado é bom.

Se é verdade que “o agir é um transbordamento do ser",
por que não poderia um educador plenamente realizado em si mesmo influenciar beneficamente os educandos realizáveis, mesmo sem nenhum programa de técnica externa?

Ninguém pode educar alguém.
Alguém só pode educar-se a si mesmo.
O que o Mestre fez, e que todo mestre pode e deve fazer, foi mostrar o caminho no qual o discípulo se pode auto-educar.

A filosofia da auto-educação ou auto-realização seria a única base sólida para uma pedagogia eficiente.

O exímio iniciado norte-americano Emerson ouviu o esplêndido discurso de um elegante orador. Todos aplaudiram entusiasticamente, menos Emerson; à pergunta sobre se não havia gostado, respondeu: “Não pude ouvir o que ele disse, porque aquilo que ele é troveja mais alto”.
Somente a plenitude do educador pode transbordar em benefício do educando. E somente essa plenitude é que pode solucionar o problema paradoxal da educação.

Ora, se a vida humana não tem destino algum nem finalidade, o melhor é gozar o que se pode gozar, evitar as coisas desagradáveis – e desaparecer no vácuo de onde surgimos.
Esta desoladora mentalidade niilista de frustração existencial é o fruto maduro, ou fruto podre, de uma visão visceralmente anticósmica da existência; é o resultado de uma instrução unilateral do ego periférico, sem uma educação unilateral do homem integral.



Os valores existem porque são a própria alma ou essência do Universo – e o homem deve captar em si esses valores, porque somente a captação de valores pela consciência torna o homem valioso e bom.




Ser educado é realizar explicitamente o que já é implicitamente.

Bom é tudo que está em harmonia com as leis cósmicas; mau é tudo que está em desarmonia.
Quando o educando compreende que o despertar de valores positivos o faz bom e feliz, então procura ele realizar em si esses valores – mesmo que essa realização o faça sofrer e dê desvantagens a seu ego.

O educador não deve convidar o seu educando a agir para receber algum prêmio por ser bom, nem a recear castigo por ser mau. Prêmio e castigo, recebidos de fora, seja antes ou depois da morte, não são motivos honestos para ser bom ou deixar de ser mau, porque essa mentalidade se baseia no ego, que se guia por fatores egoístas, externos.

O único prêmio e o único castigo a que o educador deve apelar são a realização ou frustração do próprio Eu central do homem. A realização existencial é o único prêmio que o educador e o educando devem ter em vista; e a frustração existencial é o único castigo que deve ser evitado.
Qualquer alo-prêmio ou alo-castigo é antipedagógico; somente o autoprêmio e o autocastigo são fatores pedagógicos e eticamente aceitáveis.
A única finalidade da encarnação terrestre do homem é a sua auto-realização, e o único desastre é a sua autofrustração.
Mas, para que o educador e o educando possam agir por esses motivos(buscar a auto-realização e se afastar da autofrustração existencial), é necessário que tenham(educador e educando) noção clara sobre a sua própria natureza integral. (que idade a criança esta apta a ter essa noção clara sobre a sua própria natureza integral?)

O educador que não seja um auto-realizado não pode mostrar ao educando o caminho a seguir. Palavras não são eficientes, se elas não forem o transbordamento espontâneo da vivência do educador.“Não pude ouvir o que ele(professor) disse, porque aquilo que ele é troveja mais alto”

O ser é a alma, o dizer é apenas o corpo da verdadeira pedagogia. Assim como a alma gera o corpo do homem e lhe dá vida, assim o ser do educador dá vida e poder a todo o seu dizer ou ensinar.
Antes de eduzir do seu educando esse valor, deve o educador eduzir de si mesmo esse valor. A auto-educação é o segredo de toda a alo-educação. Auto-realização é a raiz da alo-realização.

As citadas palavras de Einstein “do mundo dos fatos não conduz nenhum caminho para o mundo dos valores” são bem uma bandeira para uma nova educação.

A educação atual limita-se, quase exclusivamente, a fatos e facticidades. E, por isto, é apenas instrução, e não educação. Nenhuma instrução, por melhor que seja, torna o homem melhor, porque se limita ao conhecimento de fatos já existentes. Como já dissemos, o velho slogan “abrir uma escola é fechar uma cadeia” peca por uma ridícula ingenuidade. Os maiores criminosos da humanidade não foram analfabetos; muitos deles eram homens eruditos, conheciam os fatos da natureza pela ciência, mas não crearam valores pela consciência.
Abrir uma escola é incentivar a ciência, mas não é intensificar a consciência. Se houvesse consciência suficiente, não haveria necessidade de cadeias. Toda a ciência das escolas não pode fechar uma cadeia; mas onde há consciência não precisa haver cadeias.


Pode o homem fazer bem sem ser bom – mas não pode ser bom sem fazer bem.

Nenhum homem pode achar Deus, mas Deus pode achar o homem, quando este se torna achável, isto é, quando se esvazia dos conteúdos do seu ego e fica na expectativa da alma do Universo.

– Quando o homem vive de certo modo, Deus o descobre, e então o homem tem certeza de Deus. Mas se o homem não vive de modo que Deus o possa descobrir, o homem discute sobre Deus, mas não tem a certeza dele. Certeza não é descobrir Deus; certeza é ser descoberto por Deus.
– A filosofia oriental diz: “Quando o discípulo está pronto, então o Mestre aparece” – é isto ser descoberto por Deus?
– Exatamente.
– E quando é que o discípulo está pronto para ser descoberto pelo Mestre?
– O homem está pronto para essa descoberta divina quando ele diviniza toda a sua consciência com a vida divina e harmoniza toda a sua vida ou vivência de acordo com essa vida.

Mas esse ego-esvaziamento é praticamente impossível a uma pessoa que viva habitualmente na dispersividade material, mental e emocional, favorecida sobretudo por leituras fúteis, por trabalhos puramente materiais e, em nossos dias, sobretudo pelo cinema, pelo rádio e pela televisão. Para estas pessoas é sumamente difícil interiorizar-se no seu Eu central.
Por isto, quem se interessa realmente pela meditação verdadeira deve reduzir ao mínimo possível a sua dispersividade social e praticar freqüêntemente a concentração, por mais difícil que lhe seja de início.
O melhor período para a meditação é de manhã cedo, logo depois de acordar. O meditante começa com poucos minutos de interioridade, passando aos poucos a períodos maiores, até poder isolar-se no mundo do seu interior por meia hora ou mais.

A finalidade da meditação é retificar e orientar a vida diária.

O principiante confunde facilmente a meditação com certos cochilos devocionais sobre Deus, ou quando não pensa, desce ao transe ou à auto-hipnose, frustrando assim o verdadeiro fim da meditação. Meditar, repetimos, não é pensar nem descer ao subconsciente. Meditar é esvaziar-se de todas as atividades do ego humano, para que o homem possa ser invadido pelo Eu cósmico.
Na meditação pode o meditante dizer: “As obras que eu faço não sou eu que as faz, é o Infinito em mim que faz as obras”.

Não se pode tratar seriamente da educação sem ter noção exata sobre a origem e a natureza do homem.

O homem não era simplesmente animal; do contrário, não se teria tornado homem, porque ninguém se torna o que não é, ninguém se torna explicitamente o que não é implicitamente.


A verdadeira educação não tem outra finalidade senão essa: ela deve estabelecer perfeita harmonia e equilíbrio entre o ego mental e o Eu espiritual, porque a educação, de acordo com a filosofia, tem por fim realizar o homem integral.

Por isto, deve o educador ter noção exata sobre a origem e a natureza do homem, a fim de poder promover a relização do homem integral, que é a finalidade suprema da verdadeira educação.

Essa erradicação do mal é impossível enquanto a nossa filosofia educacional não mudar totalmente; enquanto os governos e as igrejas não tomarem a sério o ensinamento da natureza integral do homem, desde a escola primária até o curso superior.

A educação cívica e moral apela para fatores externos: o homem deve ser bom e deve deixar de ser mau a fim de evitar castigo e receber prêmio.
A educação religiosa apela para o prêmio e castigo de Deus, após a morte.
Embora esses motivos externos devam ser tolerados temporariamente, eles são ineficientes para tornarem o homem realmente bom. Toda idéia de prêmio e castigo baseia-se em egoísmo, e com motivos egoísticos não se pode educar e realizar o homem. Bergson, o filósofo francês contemporâneo, diz que as religiões detestam o egoísmo terrestre, mas recomendam o egoísmo celeste, porque argumentam com prêmio e castigo, com céu ou inferno, para educar o homem.

O único motivo ético e honesto para ser bom é o esforço para a realização da sua verdadeira natureza humana em sua totalidade, do seu Eu central.
Mas, como já dissemos, essa auto-realização supõe autoconhecimento. Quem se identifica com o seu ego ilusório vive num perpétuo círculo vicioso.
Por isto nenhum país do mundo pode estabelecer um sistema educacional eficiente sem primeiro crear centros de autoconhecimento.

Mas esses centros supõe diretores que possuam em alto grau esse autoconhecimento e o tenham demonstrado em forma de auto-realização. A falta desses diretores torna praticamente impossível a educação em base de autoconhecimento.

Assim como a falta de laranjas vem da falta de laranjeiras, a ausência de uma educação eficiente vem da ausência de educadores.

O vocábulo teológico “salvação” já foi substituído pela palavra filosófica “auto-realização”.

Na infância e na adolescência prevalece o instinto cego, que deve ser orientado e disciplinado pela razão dos adultos.


Ser cosmicamente humano é a suprema aspiração da verdadeira educação, cuja base é auto-realização, transbordamento espontâneo do autoconhecimento.

O escopo supremo da educação é tornar o homem feliz, realmente feliz.
Nem sempre a felicidade está isenta de dores, e nem sempre o gozo existe sem a infelicidade. Pode um homem ser profundamente feliz no meio de sofrimentos, e pode um homem ser infeliz no meio de gozos.
A verdadeira educação mostra ao homem o caminho para ser feliz, seja no gozo, seja no sofrimento. Esta felicidade não é um “prêmio” dado ao homem bom; a felicidade é ele mesmo, quando a sua consciência está em harmonia com a alma do Universo. O homem bom é sempre um homem feliz, seja no gozo, seja no sofrimento – e esta felicidade é o fim supremo da educação.

O único motivo eficiente é o apelo à felicidade do próprio educando. (a única persuasão eficiente para conduzir o homem a agir bem e se tornar bom é persuadi-lo que ser bom pelo motivo certo vale a pena, porque ser bom é o único caminho para ser feliz.)

O homem feliz pode sofrer, o homem infeliz pode gozar; mas o principal não é sofrer ou gozar, o principal é ser feliz, seja no sofrimento, seja no gozo.
Enquanto o educador não convencer disto o seu educando, perde o seu tempo e trabalho.
Felizmente, é possível educar o educando neste sentido; depende sobretudo da experiência pessoal do educador; se o seu íntimo ser não for felicidade, o seu dizer não convencerá o educando. Só um educador realmente bom é que é feliz. Bom não quer dizer bonachão, nem bonzinho ou bom-bonzinho; bom é viver em perfeita harmonia com as eternas leis da verdade, da justiça, do amor, da honestidade, da fraternidade.

Quando o íntimo ser do educador for ser-bom e ser-feliz, o educando, cedo ou tarde, sentirá, como que por osmose ou indução vital, o ambiente interno do educador e terá vontade de ser bom e feliz também ele. Mas, se o educador apela a belas teorias pedagógicas, de que estão repletos os nossos livros, perderá o seu tempo e trabalho. Nenhum educando tem vontade de ser bom e feliz porque seu educador leu e decorou tais e tais teorias modernas e morderníssimas.
O segredo da educação, como se vê, é essencialmente uma questão de ser e não de dizer, nem mesmo de saber. É uma questão de auto-educação, de auto-realização.

É vital que o educador desista de qualquer apelo para prêmio e castigo póstumo e faça ver ao educando que ele deve a si mesmo ser bom e feliz.
O educando deve a si mesmo estar no céu da sua felicidade, e não no inferno da sua infelicidade.

O educador tem de mostrar ao seu educando que ele é essencialmente bom e divino, e que deve fazer a sua existência humana tão boa como é a sua essência divina.

O educando deve compreender que ele deve a si mesmo ser bom e feliz, aqui e agora, porque é isto a razão de ser da sua existência, o sentido real da sua vida terrestre.

A consciência do homem não é outra coisa senão a voz das leis cósmicas, que dão liberdade ao homem para ser mau, mas exigem dele que seja livremente bom.
Todo o homem não-adulterado em sua íntima natureza se sente responsável por seus atos livremente cometidos.

O homem que tenta ser livre sem ser responsável tenta adulterar as leis cósmicas, o que jamais conseguirá; pode suicidar-se, como Judas Iscariotes, sob o peso dos remorsos, mas não consegue modificar a constituição infalível do Universo, que no homem individual se chama consciência.
O homem sensato e sábio age livremente, sentindo-se constantemente responsável por sua liberdade.
Compete ao educador consciencioso desenvolver no educando essa relação entre liberdade e responsabilidade, que é o fim principal da verdadeira educação.

Não interessa ao governo que o cidadão seja bom ou mau; interessa-lhe que não faça o mal; nem o mesmo exige do cidadão que faça o bem, mas simplesmente que evite o mal. Para o governo, é suficiente que o cidadão não faça o mal, entendendo-se por bem ou mal o respeito ou desrespeito à ordem legal e social vigentes no país.
Enquanto o cidadão não destrói ou prejudica o regime legal e a ordem social, é ele considerado um “bom cidadão”. Esse “bom” se refere ao não fazer mal, não compreendendo sequer o fazer bem, e menos ainda o “ser bom”, de que não cogita a autoridade pública, consoante o texto do Direito Romano: “De intimis nen curat praetor” (das coisas internas não se ocupa o magistrado).

Uma boa educação é para o governo aquela que respeita a ordem legal e social, não a destruindo nem a prejudicando. Isto é educação cívica. Alguns exigem também educação moral, incluindo na educação também o fazer o bem. É isto que se chama educação em base filosófica.
As religiões organizadas parecem exigir do homem que, além de fazer o bem e evitar o mal, também seja bom. Mas esse ser bom é simples camuflagem, porque o ser bom exigido pelas religiões, como já dissemos, é um egoísmo disfarçado, porquanto a chamada moral religiosa tem como motivos a promessa de prêmio e a ameaça de castigo – prêmio e castigo, ainda que póstumos, são motivos do ego, e nenhum ego pode deixar de ser egoísta. De maneira que nem no plano religioso existe verdadeira idéia de educação, que seria auto-educação, ou realização do Eu, auto-realização.
Atma Jordao
Enviado por Atma Jordao em 05/04/2021
Alterado em 07/04/2021
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