Atma Jordão
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Comentários sobre Fédon - Da Alma. (Platão)

Segundo o conceito clássico grego, aqueles que buscam e amam a Sabedoria são chamados de Filósofos. Mas o que é esta Sabedoria que os Filósofos buscam?

Na obra Fédon, Platão, por meio de Sócrates, define Sabedoria como um estado de comunhão da alma com aquilo que lhe é semelhante, ou seja,  um estado de comunhão com o puro,  imortal e imutável tal como a essencia verdadeira das virtudes.

"quando a alma investiga independentemente e por si mesma(Ou seja, investigação sem utilizar os sentidos do corpo. Investigação sem temor e sem ganância), ela parte para o domínio do puro, do perpétuo, do imortal e do imutável, e sendo aparentada a estes sempre permanece com eles toda vez que está por sua própria conta e não é barrada; cessa o seu errar e permanece sempre a mesma, inalterável com o que é sem alteração, visto que está em comunhão com este. A esse estado da alma dá-se o nome de sabedoria."

Para Platão a alma é imortal, divina e imutável e esta associada ao que lhe é semelhante e também inalteravel, ou seja, o bem, o belo, o justo, o verdadeiro.

"o que é invisível é sempre o mesmo, ao passo que o visivel esta sempre mudando" " a alma(que é invisível) é infinitamente mais semelhante ao que é sempre o mesmo do que ao que não é" " a alma é maximamente semelhante ao divino, ao imortal, ao inteligivel, ao uniforme, ao indissoluvel e ao que é sempre imutalvel, ao passo que o corpo é maximamente semelhante ao humano, ao mortal, ao multiforme"


Ora. Se sabedoria é este estado de união com o divino, perguntariamos o que é que nos afasta  e nos separa desta verdade divina, o que nos afasta da sabedoria?
A resposta para Platão é obvia: o que nos separa e nos afasta de nosso Eu divino é o nosso excesso de identificação com o corpo.

"...enquanto tivermos um corpo e estiver a alma misturada com esse mal, jamais alcançaremos o que desejamos, ou seja, a verdade."

" a alma é arrastada pelo corpo na direção de coisas que jamais permanecem as mesmas, torna-se errante, confusa e atordoada como um bêbado, assim se conservando enquanto estiver em contato com esse tipo de coisas."

"o encarceiramento da alma é causado por seus apetites, de modo que o encarcerado contribui para seu próprio encarceramento."


" se é acometido por doenças, estas obstam nossa busca pelo ser. O corpo nos enche de desejos sensuais, apetites e temores e de toda gama de ilusões e tolices"

"se pretendemos algum dia obter um conhecimento puro de qualquer coisa teremos que nos libertar do corpo e observar as coisas em si mesmas com a alma exclusivamente."

"enquanto vivermos, penso que estaremos o mais próximo do conhecimento toda vez que evitarmos, na medida do possível, o intercambio e a parceria com o corpo, salvo o absolutamente indispensavel, e não nos contaminarmos com a sua natureza peculiar, mas nos mantermos puros em relação a ele até que o próprio deus nos liberte"

Se é o corpo que nos afasta do divino, do imortal, da verdade, da Sabedoria, qual seria a maneira de nos purificar desse afastamento e nos aproximarmos da sabedoira?

" a purificação consiste em separar a alma o maximo possivel do corpo e instrui-la a recolher-se em si mesma ... e libertar-se do corpo como de grilhões"

"quando a alma investiga independentemente e por si mesma"

(Ou seja, aproxima-se da sabedoria por meio da prática da investigação sem utilizar os sentidos do corpo; investigação por meio da razão pura, abstrata, desapegada dos desejos),


"(viver uma vida) não adornando sua alma com ornamentos que lhes são estranhos, mas com os que lhes são próprios, a saber, o autocontrole, a justiça, a coragem, a liberdade e a verdade."

"autocontrole, a coragem e a justiça constituem uma purificação de todas essas coisas, sendo a própria sabedoria um tipo de purificação."

(ou seja, aproxima-se da Sabedoria por meio da prática de virtudes)

Assim, se pernsarmos que a identificação com o corpo é o grande desafio a ser superado em busca da sabedoria, como o filosofo deve encarar a morte, visto que a morte é a literal separação da alma com o corpo?


"aqueles que cultivam a filosofia de maneira correta se exercitam para morrer"

"aqueles que se devotam a atividade filosofica corretamente limitam-se a estudar o morrer e o estar morto"

"disseste há pouco, Sócrates, ou seja, que filósofos devem estar prontos e desejosos de morrer"

"Aqueles que cultivam a filosofia de maneira correta se exercitam para morrer, a morte se afigurando para eles menos temível do que para quaisquer outros seres humano."

"quando te achas diante de um homem perturbado com a iminencia da morte,(percebe) que não se trata de um amante da sabedoria, mas de um amante do corpo"



"seria ridículo que um homem que passasse a existencia praticando para viver num estado o mais próximo possível da morte com ela se afligisse quando essa chegasse para ele."

Assim, a morte para o filosofo se afigura como o esperado momento de separação com o corpo. Na obra, Fedon, Platão vai nos falar sobre a racionalidade de suas convicções sobre a existencia da Alma antes do nascimento e também da sua imortal existencia após a morte terrena.

"os vivos são gerados a partir dos mortos, tal como estes a partir dos vivos; e visto ser assim, parece-me que dispomos de uma suficiente prova de que as almas dos mortos necessariamente existem em algum lugar, de onde retornam à vida"

"as almas existiam antes de assumir a forma humana, independentemente dos corpos e eram dotadas de inteligência."

"nosso aprendizado(das coisas que São) não passa de reminiscência(da vida antes desta vida)."


Como a obra relata os ultimos momentos de Sócrates antes da sua execução, Platão apresentará as convicções que mantinham Sócrates esperançoso e impertubável diante a morte.


"quero explicar a vós, meus juízes, porque penso que um homem que realmente passou sua existencia dedicando-se à filosofia comporta-se com destemor diante da morte iminente, e alimenta intensas esperanças de que quando morto alcançará as maiores bençãos no outro mundo."


"não me angustio diante da morte por acreditar que estou indo para outros deuses mais sábios e bons e, ademais, para seres humanos que morreram, e que são melhores do que os que aqui estão."

"a alma que jamais se associou voluntariamente ao corpo durante a vida, evitando-o e recolhendo-se a si mesma, adotando a filosofia corretamente, como se fosse um treino para a morte... nessa condição(ao morrer) parte para o que lhe é semelhante, para o divino, imortal e sábio" "(a alma que)por ter estado sempre associada ao corpo, a ele servindo ... fascinada por seus apetites não poderá partir pura e integra .... tendo que partir sempre contaminada pelo corpo, ... não participando com a comunhão com o divino"



"os cisnes cantam(em vida)igualmente, mas quando sentem que estão para morrer, cantam mais e com máxima beleza no seu regozijo pela partida para se juntarem ao deus do qual são servidores"

"tudo que a alma carrega consigo para o Hades(mundo espiritual, e não inferno) é sua educação e aquilo de que se nutriu, e se diz que isso produz para o morto o maior beneficio ou o maior dano já no início de sua viagem para lá"

"aqueles que se purificaram suficientemente através da filosofia passam a viver dái por diante inteiramente sem corpos e se transferem a moradas ainda mais belas."



Visto que o filósofo não teme a morte e até espera por ela, ao expor suas ideias, Platão nas palavras de Sócrates toma cuidado para salientar a importância de não se cometer suicídio.

"não é permitido tirar a própria vida, mas que seria desejo do filósofo seguir aquele que está morrendo"


"te parecerá espantoso que esses seres humanos para os quais é melhor morrer não possam, sem incorrer em impiedade, fazer o bem a si mesmos, tendo que aguardar por algum outro benfeitor"

"nós, seres humanos, estamos numa espécie de cárcere e que não devemos nos libertar ou fugir"

"os deuses são nossos guardiões e que nós, seres humanos, somos uma das posses dos deuses..." "se uma de tuas posses desse cabo de si mesma não tendo tu expresso o desejo que ela morresse, não ficarias zangado com ele e a punirias, se pudesses?"

"não deve suicidar-se até que o deus a ele indique alguma necessidade de o fazer, como aconteceu comigo agora".




Para Socrates e Platão a maior prova/desafio da vida terrena é o nosso relacionamento com  o prazer e a dor. Nesse sentido, ele nos alerta.


"que coisa estranha, homens, parece ser aquilo que os seres humanos chamam de prazer, quão admiravelmente esta relacionado com aquilo que considera ser o seu oposto, a dor. ..se busca um e o apanha, é geralmente obrigado a apanhar também o outro como se ambos estivessem unidos unm único topo."

Platão nos adverte sobre as armadilhas do prazer e da dor, chamando a atenção para as nossos verdadeiras intenções por traz de nossa suposta moderação. A virtude é o tempo toda exaltada como requisito para sabedoria, para a boa vida e para a boa morte, por isso, o filósofo reserva parte do seu diálogo para nos advertir sobre a falsa virtude em determinados comportamentos.


"ser dominado pelos prazeres é chamado de licenciosidade"
a falso autocontrolado - "temem a possibilidade de serem privados de determinados prazeres que são objeto de seu desejo, de modo que se abstem de alguns prazeres porque se encontram sob o dominio de outros."

"exercem controle sobre certos prazeres porque são controlados por outros prazeres" "são controlados por uma especie de licenciosidade."

Vejamos a seguinte frase:

" É o medo que torna a todos corajosos, com exceção dos filósofos"

Platão nos diz que as pessoas enfrentam certos medos, motivados por um medo maior que advirá no caso de sua omissão. "E os corajosos não enfrentam a morte - quando efetivamente o fazem - por temor a males maiores? É exato"

Nesse sentido, Platão entende que o medo maior que a maioria sente de ter um interesse pessoal cerceado não é o motivo correto de expressão da coragem. Isto por que a coragem, sendo uma virtude, estará sempre acompanhada pela sabedoria, "a verdadeira virtude só existe acompanhada da sabedoria" e a sabedoria ignora desejos pessoais uma vez que ela é uma sincera vontade da alma de se manter sempre acompanhado daquilo que é bom, eterno, imutável e divino. "(a alma)parte para o domínio do puro, do perpétuo, do imortal e do imutável, e sendo aparentada a estes sempre permanece com eles ... cessa o seu errar e permanece sempre a mesma, inalterável com o que é sem alteração, visto que está em comunhão com este. A esse estado da alma dá-se o nome de sabedoria."

Para Platão "a educação é o treinamento desde a infância na virtude" e a forma correta de se adquirir essa virtude é ter como pano de fundo um ideal de sabedoria, ou seja, uma sincera vontade de estar e permanecer em comunhão com o eterno. É a virtude pela virtude e não pela conveniência que nos leva a  verdadeira expressão da sabedoria, que é essa comunhão com o que é imortal.

"suspeito não ser essa a forma correta de adquirir virtude, quer dizer, trocando prazeres por prazeres, dores por dores, temores por temores e o maior pelo menor como se fossem moedas; penso que a única moeda corrente pela qual todas essas coisas devem ser trocadas, e mediante a qual tudo isso deve ser comprado e vendido, é realmente a sabedoria "


Assim como a ética movida pela conveniencia de interesses pessoais e pelo medo de ter esses interesses cerceados, não definem o homem bom. A coragem que não é pautada pela fidelidade a ideias superiores é mera fantasia.

"a virtude constituida pela permuta reciprocra de tais coisas(prazeres,dores,temores) na ausencia da sabedora não passa de uma aparencia fantasiosa de virtude, realmente própria de escravos..."

"coragem, autocontrole, justiça e, em sintese, a verdadeira virtude, só existem acompanhadas da sabedoria( independentes de prazeres ou dores adicionadas no processo)"

Para Platão nao existe verdadeira coragem, desacompanhada de sabedoria. E sendo o filosofo amante da sabedoria, ama o filosofo este estado da alma de comunhão com o divino e perpetuo.
Sendo assim, a coragem do filósofo refere-se não a uma reação a um medo maior, mas sim a uma fidelidade as coisas atemporais, independente do prazer e da dor.


Ainda falando sobre os meios de se adquirir as verdadeira virtudes, Platão nos fala sobre a possibilidade, utilizando-se dos sentidos físicos, de resgatar uma virtude em meio as nossas reminiscencias da alma esquecidas e sepultdas pelo corpo. É o - ver fora para encontrar dentro.

 " é possível para alguém ao perceber uma coisa através da visão, da audição ou de qualquer outro sentido, evocar ao espírito com base nessa percepção um outra coisa que fora esquecida e que estava relaciona à coisa percebida, quer por semelhança, quer por dessemelhança."

Para finalizar o estudo dessa magnífica obra, retomemos a questão central:

Por que Platão, na voz de Sócrates, disse esta afirmação?

" a prática da filosofia é um treinamento para a morte"

Para Platão a prática da filosofia é a prática de buscar a sabedoria, sendo sabedoria um estado da alma de comunhão com as ideias atemporais e total afastamento de apegos mundanos.

Após a morte, nenhum desejo material poderá ser satisfeito. Assim, se o filosofo conseguir se purificar desses desejos ainda em vida, estará apto a se realizar na morte. A alma se realiza quando se alimenta daquilo que é semelhante a ela, ou seja, o Bem , o Belo, o Justo, o Verdadeiro. Esses são os únicos bens divinos que preenchem a Alma, esteja esta Alma encarnada em um corpo ou não.

Portanto, a plena realização do ser humano, seja em vida, seja após a morte, se dará quando alcançarmos a plena comunhão com as ideias atemporais e total afastamento de apegos mundanos.

Sendo assim, a busca da sabedoria é um treinamento para a vida plena, seja na vida(se tivermos uma vida interior), seja na morte, com a possibilidade de ser mais plena ainda na morte, uma vez que estaremos longe dos grilhões do corpo.
Atma Jordao
Enviado por Atma Jordao em 20/12/2020
Alterado em 04/01/2021
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