Atma Jordão
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Educação - Segundo Platão

Em primeiro lugar, é preciso entender como se dá o processo de aprendizado segundo Platão.
Para Platão, o conhecimento já existe na alma, em suas "reminiscências", sendo preciso apenas "eduzir" da alma esta sabedoria já existente.

"a educação não é o que alguns individuos proclamam ser ela, a saber, inserir conhecimento em almas que dele carecem."
" a educação não é a arte de introduzir visão na alma. A educação tem como certo que a visão já esta presente na alma, mas essa não a dirige corretamente e não arroja o seu olhar para onde deveria; a educação trata-se da arte da redirigir a visão adequadamente". A República.

Essa forma platonica de ver a criança, o jovem ou adulto como uma alma carregada de potencial para o que é bom é uma caracteristica marcante deste filósofo. Para ele, educar é eduzir, puxar de dentro, desvelar o melhor do ser humano, ou seja, as virtudes. Por isso Platão nos diz que "aqueles que são corretamente educados se tornam, via de regra, bons."

Mas em geral, o que os pais esperam de uma escola?  Certamente uma educação que prepare o jovem para a conquista de uma independencia financeira, razão pela qual se prioriza o cultivo de conteudo e habilitades que possam ser útil na formação e escolha profissional de seus filhos.

Platão não esquece do valor que a educação tem em relação ao futuro ofício dos homens, mas entende ser vulgar e indigno dizer(da educação)tratar-se de uma formação que visa somente aquisição de dinheiro ou qualquer habilidade mental destituída de sabedoria e justiça. Obra - As Leis

Nesse sentido, embora considere verdadeiro a responsabilidade da educação na formação profissional, Platão salientar que é vago declarar que educação é uma formação que visa atrair a alma da criança durante a brincadeira para o amor daquela atividade da qual, ao se tornar adulto, terá que deter perfeito domínio.

Segundo Platão "a educação é o treinamento desde a infância na virtude"
Assim, ele ratifica:
"entendo assim por educação a primeira aquisição que a criança fez da virtude",

 Virtude para Platão esta intimamente ligado com a sabedoria, "a verdadeira virtude só existe acompanhada da sabedoria" , sendo a  Sabedoria como " um estado da alma de comunhão com o imutável"

Pelo seu amplo significado, Platão se recusa a definir o que é virtude, mas nos deixa claro que ela esta relacionado ao imutável, ao divino, e, portanto, ligado ao Bem em primeiro lugar e também ao Belo e Verdadeiro.
No entanto, tendo a virtude como meta da educação, sendo este o objeto do nosso estudo,  para melhor entendimento pedimos licença para utilizar emprestado o conceito de virtude dado por seu discipulo Aristóteles.
" Virtude é um estado da alma de excelente disposição moral, que nos impulsiona a melhor conduta, mesmo diante dos prazeres e das dores" Etica a Nicomaco.

Nesse sentido, educação para Platão, ao se relacionar com a questão da virtude, visa como meta a própria sabedoria, uma vez que uma não pode estar disassociada da outra.

No sentido oposto, ignorância seria o afastamento destas virtudes atemporais da alma e a identificação com as dualidades do corpo, o que tornaria o homem escravo dos seus instintos.
Por isso, para Platão, a origem do homem mau é a ignorancia, uma espécie de enfermidade, cujo remédio é a educação para a sabedoria.

Para Platão, há uma ausencia de educação quando se perde o foco da virtude e se fixa na aquisição de riquezas.

"Quanto a esta ausência de educação , sua causa pode ser localizada nos louvores funestos da riqueza que presenciamos nas conversas ordinárias tanto de gregos quanto de bárbaros ...a  verdade é que a riqueza existe para servir ao corpo , e este para servir a alma , ..., a riqueza ela mesma só pode vir em terceiro lugar depois da virtude do corpo, e esta da virtude da alma." República.



Outra maneira que Platão encontra para falar de educação é dizer que ela é um "treinamento que consistem na correta disciplina dos prazeres e das dores."

A "correta disciplina dos prazeres e das dores" pode ser vista como a conquista da virtude da moderação, que tempera a escolha pela justa medida, não por interesses pessoais, mas pelo amor as ideias eternas.
Assim, a educação nos levaria, por meio do amor a sabedoria, a disciplinar nossos gostos e a dominar nossas reações frente aos prazeres e dores.

" a educação é o processo de atrair e orientar crianças rumo ao aprimoramento do gosto"

A educação como " o correto treinamento quanto aos prazeres e os sofrimentos, de modo a odiar o que deve ser odiado desde o início até o fim, e amar o que deve ser amado."




Assim, temos, para Platão, que a educação visa o resgate das virtudes e o consequente dominio de si mesmo, afastando o homem da ignorancia, causa de todo mau. Por isso, Platão nos diz que:
"Concordamos há muito que se os homens são capazes de dominar a si mesmos, são bons, mas se incapazes de faze-lo, são maus."

Nesse contexto, uma vez estabelecido que a sabedoria, por meio da virtude é o unico caminho que nos leva a plenitude humana, para Platão busca-la se torna o verdadeiro proposito da educação.

Pensando nisso, ao falar da criança, Platão salienta que antes mesmo dela adquirir um raciocinio estruturado, ela deveria já ir se ambientando com a virtude por meio de praticas não intelectualizadas, a exemplo de jogos simples, brincadeiras, musica. "por meio de seus brinquedos e jogos, nos esforçariamos por dirigir os gostos e desejos das crianças para direção do objeto que constitui seu objetivo principal", qual seja, a Virtude.

Para Platão é precisao encantar as crianças para que ela alcance este melhor de dentro de si. Não se trata de colocar a força algo que esta fora dela, mas resgatar de dentro dela esse melhor. Na superfície, a criança pode apresentar gostos e preferencias mais instintivas, mas em seu interior carrega a potencia de gostos mais próprios da sua divindade.

Assim, a criança deve ser atraída, seduzida, encantada, persuadida pelo educador para que aprenda com gosto, com prazer. Ninguém conquista qualquer nível de entendimento a força, mas com o comprometimento com o aprendizado.

"Porque o homem livre não deve ser obrigado a aprender como se fosse escravo. Os exercícios físicos, quando praticados à força, não causam dano ao corpo, mas as lições que se fazem entrar à força na alma nela não permanecerão."

"Assim, caríssimo, não uses de violência para educar as crianças, mas age de modo que aprendam brincando, pois assim poderás perceber mais facilmente as tendências naturais de cada uma." 

Para que as crianças não fujam dos estudos, o ensino deve valorizar a dialétia e a filosofia, além de dar mais importância a música do que à ginastica. A educação também não deve ser imposta, mas o aluno deve ser persuadido que estudar é o melhor.

“como crianças que fogem aos olhares do pai, fugirão aos olhares da lei, em conseqüência de uma educação não baseada na persuasão, mas na violência, em que se desprezou a verdadeira Musa, a da dialética e da filosofia, e se deu mais importância à ginástica do que à música.”

"Assim, deverão ser ensinadas aos nossos alunos desde a infância a aritmética, a geometria e todas as ciências que hão de servir de preparação à dialética, mas este ensino deverá ser ministrado de maneira a não haver constrangimento."


Nesse sentido, para Platão já se faz educação na primeira infancia, cultivando na criança a semente da virtude, pois "quando o prazer, o amor(amizade), a dor e o odio nascem com justeza nas almas antes do despertar da razão(ou seja, na infancia), uma vez a razão desperta, estes sentimentos se harmonizam com a razão"

Assim, Platão recomenda que a educação comece já na primeira infância, uma vez que ele nos lembra que “devido a força do hábito é na infância que todo o caráter é mais efetivamente determinado."

"E não sabes que o começo, em todas as coisas, é sempre o mais importante, mormente para os jovens? Com efeito, é sobretudo nessa época que os modelamos e que eles recebem a marca que pretendemos imprimir-lhes."

Ainda sim, não obstante o valor da educação na infância, Platão nos lembra  também que a educação é para toda a vida, devendo, em todo caso, ser começada a qualquer momento. 

"em caso algum a educação deve ser depreciada pois ela é o primeiro dos maiores bens ... e se ela alguma vez desviar do caminho certo, mas puder ser re-encaminhada novamente, todo homem, enquanto viver, deverá empenhar-se com todas suas forças a essa tarefa.


Mas qual seria a proposta de Platão para resgatar esse ser humano virtuoso que encontra-se sepultado, em carcere, dentro do próprio homem?
No que diz respeito a educação, Platão nos lembra que:

"O modo mais eficiente de educar os jovens – bem como as próprias pessoais mais velhas – não é repreender mas sim simplesmente praticar por toda nossa vida aquilo pelo que repreendemos os outros."
 
Platão ai, salienta o papel da coerencia e vida moral naquele que se propõe exercer o papel de educador.
Também, em outro momento, Platão nos lembra da importância do cultivo da humildade no discipulo para que este aceite mestres para guia-los.

"Todo ser humano deve fugir dos excessivo amor de si mesmo e sempre seguir alguém melhor do que ele, sem pretextar jamais a vergonha que experimenta nessa ocasião."

Sabemos que para Platão, um homem educado é um homem bom, que cultiva as virtudes dentro de si. Mas quais são as capacidades desse homem educado e quais ferramentas devem ser utilizadas para educar?

Platão nos fala sobre
"ensinar jogos e cantos, que são na realidade encantamentos seriamente concebidos para produzir nas almas aquela conformidade e harmonia."

Quanto as jogos, Platão nos lembra que:

"A formação de caráter  das crianças de mais de três anos e até seis exigirá a pratica de jogos."

"Para crianças dessa idade há jogos que nascem do próprio instinto natural e elas os inventam elas mesmas sempre que estão juntas."

     Platão busca, pela educação, a formação do homem justo e explica a formação desse homem comparando a um Estado dividido em três partes : o Rei(conselheiros), os guardiões(auxiliares) e o povo (massa ganhadores de dinheiro). Da mesma forma a personalidade(ou psique humana) seria dividida em 3 partes: razão, cólera(elemento irascível) e apetites(elemento concupiscente).
     O rei, representando a Razão, deve dominar três virtudes – Sabedoria, Coragem e Moderação.
     Os Guardioes, representando a cólera do elemento irascível deve ser capaz de obedecer ao Rei, ou seja, a Razão, e para isso devem dominarduas virtudes, Coragem e Moderação.
     O povo, que é a maioria, representa os apetites e devem dominar a virtude da moderação.
     Assim teriamos o Estado justo e o individuo justo, uma vez que a justiça nasce da união destas três virtudes e da consequente harmonia entre estes três elementos, ou seja, razão, elemento irascível e elemento apetitivos.

“estes dois elementos(razão e cólera) corretamente educados governarão o elemento maior( massa - elemento apetitivo) que é o elemento mais ávido por dinheiro. Eles(rei/razão e guardiões/colera) vigiarão o elemento apetitivo para que não se torne repleto dos chamados prazeres do corpo”

     O corajoso é aquele que se preserva fiel aos ditames da razão em meio a dores e prazeres, “temendo” apenas se tornar injusto, indigno.

“Corajoso é quando a animosidade preserva, em meio a dores e prazeres, os ditames da razão sobre o que é para ser temido e o que não é para sê-lo.”

     Sábio é aquele que é governado pelos ditames da razão e que preserva dentro de si o conhecimento do que é proveitoso para os elementos irascíveis e os apetitivos e proveitoso para toda a psique.

“o qualificaremos de sábio devido àquele pequeno elemento de si que nele governa, produz esses ditames e encerra dentro de si o conhecimento do que é proveitos para cada elemento e para toda a alma, que é a associação de todos os três elementos."

“Moderação quando o governante e os governados concordam que o elemento racional deve governar e não entram em conflito com este.”

A pratica educacional para a conquista da Sabedoria viria colocando a razão investigativa em contato com belos discursos(fábulas e mitos) e belos conhecimento(filosofia sobre as coisas que São).

A conquista da Coragem viria colocando a parte colérica da mente em contato com narrativas tranquilizantes, além de abranda-la por meio de harmonia e ritmo.

“ com a combinação de música e poesia com ginástica que torna os dois elementos(razão e cólera)harmoniosos.”

Para Platão a pratica da ginástica que educa o corpo inclui luta e dança.
Já a música que educa a alma inclui belos discursos(fábulas e mitos), conhecimento(a própria filosofia sobre as coisas que São), harmonia e ritmo, poesia(fabulas versificadas)


"As lições podem, por uma questão de pragmaticiadade, ser dividida em duas categorias: a da ginastica, que educam o corpo e as música, que educam a alma. Há dois tipos de ginástica: a dança e a luta."

Quanto a música, principalmente ensinada após os 6 anos, Platão nos fala sobre um processo de harmonização externa que reflete numa harmonia interna.

"os deuses nos concederam a agradavel percepão do ritmo e da harmonia, por meio do que nos fazem nos mover e conduzir nossos coros, de modo que nos ligamos mutuamente mediante canções e danças"

" a educação deve sua origem a Apolo e às Musas e que o homem educado conta inteiramente com o treinamento nos corais."

" o homem educado terá a capacidade tanto de cantar quanto de dançar bem, ... contanto que cante belas canções e dance belas danças"


Sócrates — Existem na alma dois elementos: a coragem e a sabedoria; um deus, direi eu, deu aos homens duas artes, a música e a ginástica; não as deu para a alma e para o corpo, a não ser acidentalmente, mas para aqueles dois elementos, a fim de que se harmonizem entre si, sendo estendidos ou soltos até ao ponto conveniente.
Glauco — Assim parece.
Sócrates — Aquele, pois, que associa com mais beleza a ginástica à música e, com mais tato, as aplica à sua alma, é músico perfeito e possui a ciência da harmonia muito mais do que aquele que afina entre si as cordas de um instrumento.
Glauco — E com toda a justiça, Sócrates.



Sócrates — Acreditarias, meu caro Glauco, que os que fundamentaram a educação na música e na ginástica fizeram-no para formar o corpo por meio de uma e a alma por meio de outra? Glauco — Por que me fazes essa pergunta?
Sócrates — E que me parece que tanto uma como a outra foram criadas principalmente para a alma.




Sócrates — Já notaste, certamente, qual é a disposição de espírito dos que se entregam à ginástica durante toda a vida e não se interessam pela música? Ou dos que fazem o contrário?
Glauco — De que disposição falas?
Sócrates — Da rudeza e dureza de uns, da moleza e brandura dos outros.
Glauco—Já notei que aqueles que se entregam unicamente à ginástica contraem demasiada rudeza e que os que cultivam os omitiria a decência.
Sócrates — Entretanto, é o elemento generoso da sua natureza que provoca a rudeza; bem dirigido, tornar-se-ia coragem, mas, demasiado tenso, degenera em dureza e mau humor, como é natural.
Glauco — Assim me parece.
Sócrates — E a brandura não faz parte do caráter do filósofo? Demasiado frouxa, amolece-o mais do que o permitido, mas, dirigida, abranda-o e ordena-o.
Glauco — Perfeitamente.
Sócrates — E nós queremos que os nossos guerreiros reúnam estas duas características.
Glauco — Sem dúvida.
Sócrates — Não devemos, então, colocá-las em harmonia uma com a outra?
Glauco — Sem dúvida.
 Sócrates — E a sua harmonia não toma a alma ao mesmo tempo moderada e corajosa? Glauco — Certamente.
Sócrates — Ao passo que a sua desarmonia a torna covarde e grosseira?
Glauco — Sim.
Sócrates — Logo, quando um homem permite que a música o encante com o som da flauta e lhe derrame na alma, pelos ouvidos, essas harmonias suaves, moles e plangentes de que falávamos há pouco, passa a vida distraído, exultante de alegria pela beleza do canto: em primeiro lugar, suaviza o elemento irascível da sua alma, como o fogo amolece o ferro e o torna útil, de inútil e dum que era antes; mas, se continua a entregar-se ao encantamento, a sua coragem não tarda a dissolver-se e a fundir-se, até se reduzir a nada, até ser extraída, como um nervo, da sua alma, tornando-o um guerreiro sem vigor.
Glauco — Tens razão.



Sócrates — Sendo assim, vamos permitir, por negligência, que as crianças ouçam as primeiras fábulas que lhes apareçam, criadas por indivíduos quaisquer, e recebam em seus espíritos entender, quando forem adultos?
Adimanto — De forma alguma permitiremos.
Sócrates — Portanto, parece-me que precisamos começar por vigiar os criadores de fábulas, separar as suas composições boas das más. Em seguida, convenceremos as amas e as mães a contarem aos filhos as que tivermos escolhido e a modelarem-lhes a alma com as suas fábulas muito mais do que o corpo com as suas mãos. Mas a maior parte das que elas contam atualmente devem ser condenadas.


 Adimanto — Quais são essas fábulas e o que há nelas de condenável?
Sócrates — O que antes e acima de tudo deve ser condenado, mormente quando a mentira não possui beleza.
Adimanto — E quando não possui?
Sócrates — Quando os deuses e os heróis são mal representados, como um pintor que pinta objetos sem nenhuma semelhança com os que pretendia representar.


Mesmo que o comportamento de Cronos e a maneira como foi tratado pelo filho fossem verdadeiros, penso que não deviam ser narrados com tanta leviandade a seres desprovidos de razão e às crianças, mas que seria preferível enterrá-los no silêncio; e, se é necessário falar nisso, deve-se fazê-lo em segredo, diante do menor número possível de ouvintes, depois de ter imolado, não um porco, mas uma vítima grande e difícil de conseguir, para que haja muito poucos iniciados. A República - Ed. internet.

"mesmo que fosse verdadeiro, devia passar em silêncio e não ser narrado levianamente a jovens tolos. e se, por alguma razão, tivesse de ser narrado, somente pouquíssimas pessoas - comprometidas com um segredo -, e após terem sacrificado não apenas um porco, mas uma vítima superior e rara, deveriam ouvi-lo, de forma que o número dessas fosse mantido o menor possível." A República - Edipro.


Que jamais se lhes conte ... combates de deuses que Homero imaginou, quer essas ficções sejam alegóricas, quer não. Pois uma criança não pode diferenciar uma alegoria do que não é, e as opiniões que recebe nessa idade tornam-se indeléveis e inabaláveis. E devido a isso que se deve fazer todo o possível para que as primeiras fábulas que ela ouve sejam as mais belas e as mais adequadas a ensinar-lhe a virtude.

No que se refere ao estudo da Musica, Platão inclui os estudos dos discursos tal como as fábulas e os mitos. Obviamente nos fala também do canto e da melodia

“ que a melodia se compõe de três elementos: as palavras, a harmonia e o ritmo.”
Ao falar da letra das música, Platão salientar que deve ser tão belas quanto as fábulas e mitos.

“Quanto às palavras, diferem das que não são cantadas?(ou seja, fabulas e mitos) Não devem ser compostas segundo as regras que enunciamos há pouco e de forma semelhante?(ou seja, as palavras devem ser belas – reverenciar as virtudes dos deuses e Herois)"

Ao falar da harmonia e do ritmo, Platão salienta a influencia desse elementos na formação do caráter.

“a educação musical é a parte principal da educação, porque o ritmo e a harmonia têm o grande poder de penetrar na alma e tocá-la fortemente, levando com eles a graça e cortejando-a, quando se foi bem-educado"

 “a feiúra, a arritmia, a desarmonia são irmãs da má linguagem e do mau caráter, ao passo que as qualidades opostas são irmãs e imitações do caráter oposto, da sabedoria e da bondade da alma.”

“Não devemos, ao contrário, procurar artistas de mérito, capazes de seguirem a natureza do belo e do gracioso, a fim de que chegue aos ouvidos e olhos de nossos jovens uma emanação das obras belas, tal como uma brisa transporta a saúde de regiões salubres, e predispondo-os insensivelmente, desde a infância, a imitar e a amar o que é reto e razoável?”


Platão salienta que na infância, antes da razão, o jovem deve ser educado a ouvir o que é bom.

"E também porque o jovem a quem é dada(a música) como convém sente muito vivamente a imperfeição e a feiúra nas obras da arte ou da natureza e experimenta justamente desagrado. Louva as coisas belas, recebe-as alegremente no espírito, para fazer delas o seu alimento, e torna-se assim nobre e bom; ao contrário, censura justamente as coisas feias, odeia-as logo na infância, antes de estar de posse da razão, e, quando adquire esta, acolhe-a com ternura e reconhece-a como um parente, tanto melhor quanto mais tiver sido preparado para isso pela educação."




 
Sócrates — Esta expressão parece-me querer dizer que existem duas partes na alma humana: uma superior em qualidade e outra inferior; quando a superior comanda a inferior, diz-se que é o homem senhor de si mesmo — o que é, sem dúvida, um elogio; mas quando, devido a uma má educação ou a uma má freqüência, a parte superior, que é menor, é dominada pela massa dos elementos que compõem a inferior, censura-se este domínio como vergonhoso e diz-se que o homem em semelhante estado é escravo de si mesmo e corrupto.







A infancia, como já foi dito por Platão, trata-se de uma epoca de forte impacto no caráter. Por conta disto ele agora nos remete as cuidados que já devem começar dos 0 a 3 anos. 

No que diz respeito a alimentação, Platão salienta que 
 
"A nutrição(alimentação) correta tem que ser decidamente capaz de tornar tanto corpos quanto almas em todos os aspectos os mais belos e melhores possíveis. ... os corpos mais belos devem já da mais tenra infancia se desenvolverem com a maior normalidade possível."

Outro ponto interessante que Platão nos propoe é em relação em como lidar com os aspectos do "medo" em relação a criança.

"Que a criança de peito(0 a 3) provasse o mínimo possível de aflição, medo ou sofrimento de qualquer espécie ... e graças a esse meio a alma do lactente ganharia mais luz e leveza."

Aqui Platão vai nos chamar a atenção para a importância do ambiente leve em que a criança até os tres anos deve ser submetida. Isso não significa que todas suas vontades devem ser atendidas. Nesse sentido, Platão adverte.

"Não digo que deves proporcionar muitos prazeres a criança, pois tal procedimento constitui a  pior forma de corrupção visto ocorrer em todos os casos no próprio incio da educação da criança...A vida acertada não deve nem visar exclusivamente os prazeres nem se esquivar inteiramente as dores, devendo sim encerrar aquele estado intermediário de leveza."

Ao falar da leveza do ambiente para a boa educação na infancia, Platão vai além e fala inclusive do ambiente uterino:

"Sustento que mesmo as mulheres gravidas não deveriam se entregar a prazeres reiterados e intensos em lugar de cultivar durante a totalidade desse período um humor jovial, leve e sereno."


Mas voltanto ao assunto da relação entre o "medo" e o desemvolvimento da criança, Platão chamará a atenção para o fato de mesmos os bebes, quando balançados no ninar da mãe são beneficiados pelo poder do movimento que tranquiliza o bebe em relação ao medo.

"Toda vez que se aplica um sacudir(movimento) externo(ao corpo), este domina o movimento interno de medo e frenesi e ao domina-la produz uma tranquilidade."

Para Platão, o medo é a causa de grandes males e o movimento um caminho para cura.

"Toda alma submetida ao medo desde a juventude tenderá a torna-la tímida e pratica da covardia."

"O exercício(movimento que cessa o medo) para crianças extremamente novas por meio de movimentos variados, contribui grandemente para o desenvolvimento de uma parte da virtude da alma(coragem)."

Por isso também a dança e a ginástica(após 6 anos) como formas de movimento propostas por Platão realçam este combate ao medo. Num diálogo proposto pelo o autor do épico Portões de Fogo, uma forma de dominio do medo, ciencia chamada de phobologia era justamente o movimento, o treinamento, o trabalho. No mesmo dialogo o autor nos traz como conclusão que o oposto do medo é necessariamente o trabalho, e sim o amor. Mas o que é o trabalho, senão, nas palavras de poeta Khalil Gibran, "o amor que toma forma"? Podemos sintetizar assim que o movimento, seja pela ginastica, pela dança, pelo trabalho ou até pelo ninar da mãe, constitui ferramenta educacional de superação do medo.

Vejamos os males que o medo, juntamente com a inércia podem nos causar segundo Platão.

"A vida indolente desenvolve nas crianças um humor melancólico, tendente a cólera e muito facilmente movido pelas ninharias; por outro lado, o rigor extremo e rude a ponto de reduzi-las a uma escravidão cruel as torna vis, mesquinhas e misantrópicas e assim insociáveis."
 
Aqui Platão nos fala sobre dois extremos: a carencia(de movimento) e seu excesso. Nesse sentido, o equilibrio entre o ensino da ginástica(para o corpo) e da música(para a alma) seria o remédio certo para gerar a educação rumo a moderação e a virtude como um todo.

 "Se tais regras forem(ambiente de leveza, movimento) metodicamente cumpridas a respeito de meninos e meninas até 3 anos de idade, isto concorrerá grandemente para o beneficiamento de nossas crianças."

Quanto a educação proposta entre a crianças de 3 a 6 anos, Platão nos lembra da importancia da socialização entre elas, da importancia dos Jogos e também das justa punições como forma de conduzir a virtude.
 
Logo que atingirem os três anos, todas entre três e seis anos terão que ser reunidas nos templos dos povados. As amas de leites destas crianças deverão zelar por seu comportamento...nesse período se fará uso do castigo a fim de imedi-la de ser indolente – não, todavia, um castigo de tipo degradante. ... deveria evitar enraivecer as pessoas punidas por meio de castigos degradantes, ou amolece-las deixando-as impunes."

Nesta idade, retomo aqui a citação onde Platão fala sobre os jogos

"A formação de caráter  das crianças de mais de três anos e até seis exigirá a pratica de jogos."

"Para crianças dessa idade há jogos que nascem do próprio instinto natural e elas os inventam elas mesmas sempre que estão juntas."


A partir daqui Platão nos fala da ameaça que é a razão indisciplinada propria das crianças após 6 anos e a importancia de um educador nesta fase

"Ao amanhecer as crianças deverão se dirigir aos seus educadores, pois como nenhuma ovelha ou outro animal de pasto deve viver sem a presença de um pastor, também não podem as crianças viver sem um tutor. Entre todas as criaturas selvagens a criança é a mais intratável; pelo próprio fato dessa fonte de razão que nela existe ainda ser indisciplinada, a criança é uma criatura traiçoeira, astuciosa e sumamente insolente, diante do que tem que ser atada, por assim dizer, por múltiplas rédeas, a começar por quando deixa o cuidado da mãe."

Em relação a educação após os 6 anos, onde precisamente começam a ginástica e a música, Platão nos propõe:

"Após os 6 anos devera haver uma separação dos sexos."

"Os meninos aprenderão equitação, o manejo do arco, o arremesso do dardo e da funda; as meninas também. Versa-los nas duas mãos."

"As lições podem, por uma questão de pragmaticiadade, ser dividida em duas categorias: a da ginastica, que educam o corpo e as música, que educam a alma. Há dois tipos de ginástica: a dança e a luta."

Mas o que Platão quer nos dizer quando fala de música?
Em Fedon, Platão nos diz por meio de Sócrates o seguinte:

"frequentes instruções em sonhos que necessito cultivar a musica... pratica as artes das Musas e te empenha nelas" "achava que o sonho me estimulava a fazer o que já fazia uma vez que a filosofia era a mais grandiosa forma de música."

"Poesia é ordinariamente classificado como musica"

"se um poeta tem a pretensão de realmente ser poeta, cabe-lhe necessariamente compor fábulas(Mythoys) e não discursos racionais(logoys). "tomei as fábulas de Esopo e versifiquei a primeira em que pus as mãos"

Assim, quando Platão nos fala sobre a música para educar a Alma, ele esta a nos falar, não só do aprendizado do canto, de um intrumento(lira, por exemplo), mas também está a falar de poesia(fábulas versificadas, por exemplo) e também da propria arte de filosofar.

Outro treinamento para a virtude e para a sabedoria que Platão propõe é o cumprimento de alguns ritos.

"Constituira regra para crianças dos 6 anos até a idade do serviço militar, estar sempre equipadas com armas e cavalos diante de cortejos em honra dos deuses, e dançar e marchar alternando celeridade com lentidão enquanto dirigem suas suplicas aos deuses e filhos dos deuses."

Platão agora fará referencia sobre o estudo da lingua, da música, da matemática, da astronomia e astrologia.
 
"Em primeiro lugar, as letras, em seguida como tocar lira, e também a aritmética... aprender o conhecimento dos corpos celestes..."

"Quanto ao estudo das letras, um periodo em torno de três anos sera razoável para um criança de dez anos de idade,

e quanto ao estudo da lira a criança devera incia-lo aos treze anos e a ele se aplicar por três anos. E quer a criança goste ou não goste do estudo, não sera permidido encurtar ou alongar o período de estudo."



"enquanto jovens e crianças, deveriam ocupar-se com uma educação e filosofia adequadas à juventude e cuidar de seus corpos num tempo em que desenvolvem a masculinidade, com isso adquirindo uma base e suporte para a filosofia. À medida que envelhecem e suas almas principiam a alcançar sua maturidade, deveriam aumentar seus exercícios intelectuais."

"Quando acabar o curso obrigatório de exercidos ginásticos, pois este tempo de exercício, que deve ser de dois a três anos, não se aplicará em outra coisa, porque a fadiga e o sono são inimigos do estudo. Esta é uma das provas, e não a menor, que consistirá em observar como cada um se comporta na ginástica".
Concluo este discurso salientando a frase sempre enfatizada por Platão e por seu mestre Sócrates, fazendo menção as escritos de Delphos: conheça-te a ti mesmo.
Um mestre pode ajudar a formar o carater e a indicar o caminho, mas sempre caberá ao proprio homem caminhar neste caminho de autoconhecimento, fazendo de sua personalidade seu próprio discipulo.

Para sustentarmos a busca da sabedoria, temos que alcançar uma evidencia interna sobre "de onde viemos, quem somos e para onde vamos".

Para entender que a etica é o unico alimento do nosso verdadeiro ser e que nossa capacidade de nos realizarmos neste mundo está nesse entendimento e nesta pratica é preciso caminhar este caminho de autoconhecimento.

Todo o sentido de educação como processo de desvelar o diamente que nos habita, o qual, nas palavras do neoplatonico Plotino, esta encoberto de lama só possivel retira-la por meio da virtude só pode ser entendido pela firme convicção de que somos Alma divinas, cuja vontade ultima é retornar a Unidade que nos criou.

Fora dessa conquista interior de uma convicção intuitiva, o conceito de educação proposto pelo divino mestre Platão, nos caira como dogmas a serem sempre ridicularizado pelo intelecto materialista.
Atma Jordao
Enviado por Atma Jordao em 18/12/2020
Alterado em 05/01/2021
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